sábado, 5 de março de 2016

entre o sublime e o fade


A imagem acima é um fade, a tela escura. No cinema, são 24 quadros por segundo, porém, entre os quadros se insere um espaço. a tela escura, que viabiliza a exposição do filme, em sua ilusão de movimento. A posição da imagem em fade opera em analogia com a exclusão dos sujeitos não vistos nas telas, mas apenas a sua exclusão torna visível os sujeitos credenciados a buscar a sua ancestralidade e se elevarem ao status de heróis, como no caso do protagonista do filme, herói do próprio destino.
A imagem do saco de lixo referida por Lopes, o sublime no banal, nos alcançou a todos no carnaval. Refiro-me ao episódio da jovem flagrada enchendo garrafas de água. Pensaram que era para a venda no circuito da folia, mas foi um mal entendido de consequências lamentáveis. A imagem da jovem, porém, pode ser análoga à imagem do saco de lixo, com a perspectiva de uma sociedade capitalista que invisibiliza sujeitos e exlui, mas, ainda assim, aquele sujeito excluído da tela, representado pela pausa no movimento determinada pelo fade, pode ser herói do próprio destino, como nos ensinou a jovem vendedora.,Reefrimo-nos aos sujeitos, tal como a jovem, que ocupam o ligar da invisibilidade, do fade, os invisíveis, os corpos abjetos.

Lopes considera que o grandioso, o monumental é, cada vez mais associado à arte dos vencedores. Uma saída para fugir da pressão abissal que reside em séculos de devoção a determinadas imagens é vê-las no cotidiano, resgatando seu aspecto sublime, mas conspurcando a sua aura, operações simultâneas. Não é precisamente uma paródia da Pietá que vemos acima, com o protagonista do filme carregando o corpo da sua mãe no colo, como na imagem sagrada???

O sublime no banal pode abrir a percepção fílmica a análises como a contraposição das placas de publicidade, entre hope (esperança) e mash (triturar), ambiguidade à qual estava submetida a população brasileira no período do era Collor. O encantamento, tal como assinala Lopes, não está mais no mundo dos deuses, como no período anterior aos séculos XVIII e XIX, mas, numa sociedade laica, o mundo material passa a ser âmbito de fascínio e todos podemos ler as obras de arte, em especial o cinema, em busca de sinais, no sentido análogo ao emprego exotérico do termo.




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