quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

“Plantei uma Árvore sem ter água para regar...” (1:00)


Aqui temos um “menino” relatando sua história, seus sonhos e sua vida cotidiana, percebemos que trata-se de uma pessoa que não tem um grau elevado de escolaridade, mas que tem um domínio da fala, uma forma poética de descrever as coisas comuns assim como Virgílio de Lemos faz em seu Poema: Sagrado Coração de Meus Anseios. Neste poema vemos os anseios de uma mulher que não quer ser limitada, rotulada, transformada em algo que não é e nem quer ser. Do outro lado temos um menino que almeja um futuro, mas com a chegada da "árvore que ele plantou", referência ao filho que irá nascer, ele terá que postergar seus sonhos.
Em outro ponto, encontramos em Waly Salomão, como na fala do “menino” uma referência a um elemento da natureza (árvore/onda), para fazer poesia ou, neste caso, descreve-lá:
Escrever poesia é como surfar.
...
Poesia, como surfar, é inesgotavelmente fresca e cheia de surpresas, suas delícias são sem fim, e cada onda, como cada poema, contribui em sua medida para o que sentimos, sabemos e acreditamos. (SUPERFÍCIES).

Ó mar, ó mar salgado.... quanto do teu sal são lágrimas de Guiné-Bissau?


Será que vale a pena um conceito de “literatura atlântica? ” Há apenas algumas décadas as ex-colônias portuguesas se libertaram do jugo da metrópole. Justo agora, quando se alevanta uma perspectiva de construir uma literatura nacional, se tenta abolir o conceito de literatura nacional, pois foram abandonadas todas as reivindicações de subjetividade e pertencimento. E o que se põe no lugar? Uma alma de literatura universal?? Bah....O que uma “literatura atlântica” talvez não considere é que a adjetivação no singular, a pretensão de uma unidade, ainda que supostamente bem-intencionada, recai na perspectiva de Boaventura Santos – na defesa de um humanismo português e na defesa de um legado da colonização portuguesa. Já dizia a minha avó que, às vezes, melhor que criticar é silenciar, mas cordialidade apenas rima com criatividade, mas não há, entre elas, nem é possível haver, parcerias ou isotopias. As emoções não cabem apenas na poesia, mas na reflexão que se tece sobre ela – mas aqui vamos como na capoeira, num enfrentamento de ideias, no qual parceiros-oponentes dão-se as mãos e giram no ar.

Misto de alegria e ira
Um Nero de macumba dedilha a clave de fá

Não parece loucura?? – e o q eh loucura? Não há uma loucura espreitando à solta, para ali ser encarcerada. E o olhar de Walli, que viu o Nero na macumba, mas não entendeu, que na macumba não baixam espíritos de mortos (só orixás) e q macumba é um instrumento musical e não uma religião e q se a Pombagira, como a Capitu, tem olhos de ressaca, o mesmo não posso dizer da minha mãe Yemanjá e da minha avó Yansã, pois jamais lhes vi os olhos, pois são senhoras de uma dignidade tal que não nos é permitido lhes olhar nos olhos.

E mira as margens plácidas
                          flácidas
                                           ácidas
Com os olhos de ressaca de uma qualquer Pomba-gira.


Já a Pombagira “ah, rapaz.... Pombagira é mulher da zona”, conforme assim me disse uma digna Pmbagira com um copo de cerveja na mão e o um sorriso nos lábios. E já não está na hora de se repensar a hipersexualização da mulher negra na literatura?? Por q sempre puta, sempre "uma qualquer"? – é este o único lugar que lhe é digno para ocupar??.... no lo creo.

TRECHOS do texto:

Com base em demandas desse tipo é que queremos propor aqui um outro
campo de atuação, uma outra formulação conceitual com a qual seja possível
pensar, em bases distintas, as manifestações culturais dos países de língua
portuguesa: a Literatura Atlântica. Seria uma outra maneira de pensar a lusofonia
que não seja pautada pelas noções de fonte e influência, origem e cópia,
centro e periferia, mas que tente contemplar as relações existentes entre as
literaturas dos diferentes países de língua portuguesa a partir da multiplicidade
de caminhos, de uma via em que não há hierarquias, modelos ou tutores a
seguir. (VASCONCELOS, p 123)

que caem sob o interesse da História Atlântica. O modelo teórico procurou,
em resumo,
Fugir do molde imperial ou nacionalista para atravessar divisas e fronteiras, para
estudar o movimento das pessoas, de animais, de plantas e mercadorias numa
escala não apenas Atlântica, mas global, para reconstruir o ir e vir de ideias,
estilos, modas e artes. A intenção foi reunir estudiosos de várias disciplinas
que contribuíram para a criação de uma nova perspectiva e uma aproximação
original à riqueza de facetas do Atlântico e da interconectividade dos povos nos
continentes banhados por suas ondas (RUSSEL-WOOD, 2009, p. 19)

(VASCONCELOS, p 123/124)