Será que vale a pena um conceito de “literatura atlântica? ” Há apenas algumas décadas as ex-colônias portuguesas se libertaram do jugo da metrópole. Justo agora, quando se alevanta uma perspectiva de construir uma literatura nacional, se tenta abolir o conceito de literatura nacional, pois foram abandonadas todas as reivindicações de subjetividade e pertencimento. E o que se põe no lugar? Uma alma de literatura universal?? Bah....O que uma “literatura atlântica” talvez não considere é que a adjetivação no singular, a pretensão de uma unidade, ainda que supostamente bem-intencionada, recai na perspectiva de Boaventura Santos – na defesa de um humanismo português e na defesa de um legado da colonização portuguesa. Já dizia a minha avó que, às vezes, melhor que criticar é silenciar, mas cordialidade apenas rima com criatividade, mas não há, entre elas, nem é possível haver, parcerias ou isotopias. As emoções não cabem apenas na poesia, mas na reflexão que se tece sobre ela – mas aqui vamos como na capoeira, num enfrentamento de ideias, no qual parceiros-oponentes dão-se as mãos e giram no ar.
Misto de alegria e ira
Um Nero de macumba dedilha a clave de fá
Não parece loucura?? – e o q eh loucura? Não há uma loucura espreitando à solta, para ali ser encarcerada. E o olhar de Walli, que viu o Nero na macumba, mas não entendeu, que na macumba não baixam espíritos de mortos (só orixás) e q macumba é um instrumento musical e não uma religião e q se a Pombagira, como a Capitu, tem olhos de ressaca, o mesmo não posso dizer da minha mãe Yemanjá e da minha avó Yansã, pois jamais lhes vi os olhos, pois são senhoras de uma dignidade tal que não nos é permitido lhes olhar nos olhos.
E mira as margens plácidas
flácidas
ácidas
Com os olhos de ressaca de uma qualquer Pomba-gira.
Já a Pombagira “ah, rapaz.... Pombagira é mulher da zona”, conforme assim me disse uma digna Pmbagira com um copo de cerveja na mão e o um sorriso nos lábios. E já não está na hora de se repensar a hipersexualização da mulher negra na literatura?? Por q sempre puta, sempre "uma qualquer"? – é este o único lugar que lhe é digno para ocupar??.... no lo creo.
TRECHOS do texto:
Com base em demandas desse tipo é que queremos propor aqui um outro
campo de atuação, uma outra formulação conceitual com a qual seja possível
pensar, em bases distintas, as manifestações culturais dos países de língua
portuguesa: a Literatura Atlântica. Seria uma outra maneira de pensar a lusofonia
que não seja pautada pelas noções de fonte e influência, origem e cópia,
centro e periferia, mas que tente contemplar as relações existentes entre as
literaturas dos diferentes países de língua portuguesa a partir da multiplicidade
de caminhos, de uma via em que não há hierarquias, modelos ou tutores a
seguir. (VASCONCELOS, p 123)
que caem sob o interesse da História Atlântica. O modelo teórico procurou,
em resumo,
Fugir do molde imperial ou nacionalista para atravessar divisas e fronteiras, para
estudar o movimento das pessoas, de animais, de plantas e mercadorias numa
escala não apenas Atlântica, mas global, para reconstruir o ir e vir de ideias,
estilos, modas e artes. A intenção foi reunir estudiosos de várias disciplinas
que contribuíram para a criação de uma nova perspectiva e uma aproximação
original à riqueza de facetas do Atlântico e da interconectividade dos povos nos
continentes banhados por suas ondas (RUSSEL-WOOD, 2009, p. 19)
(VASCONCELOS, p 123/124)